
- Eu não me importo se estou caindo em uma selva escura e sombria novamente, porque enquanto eu ainda respirar, conseguirei forças para cortar todas as folhas que porventura tentarem me derrubar, e serrarei cada galho que cortar minha pele com a dureza afiada de seus movimentos. Eu sento na minha cadeira, abro minhas folhas antigas, vejo que o pó tentou destruir um pouco a minha imagem antepassada, tão desbotada, tão descolorida, tão mesquinha. Eu me lembro, eu era um tanto egoísta, um tanto mantenedor de sentimentos obscuros, falhos, mas que sempre me protegeram de um viver mais realista. A realidade não era minha amiga, muito menos minha companheira e eu era, em si, feliz. Hoje, com ela ao meu lado, provando mais uma vez do meu cálice de vinho tinto, já mais que amargo pelo tempo, eu entendo que ela nunca mais irá me abandonar. Estará aqui, todos os dias, quando eu acordar e olhar novamente o ventilador que roda no teto. Estará aqui, todos os dias, enquanto eu sentir a água morna que o chuveiro deixa cair sobre mim. Estará aqui, mais do que nunca, quando novamente esse coração for apredejado, arrastado sem perdão por uma rua vazia, um gueto, e por lá for deixado por qualquer razão, enfim, desalentado. Ela estará lá, não pra ajudar, mas para assistir, como sempre faz, enquanto qualquer outra coisa entra em ação. Ela estará lá para mostrar que a ignorância, às vezes, é o melhor remédio. Bendito os ignorantes, porque deles será a felicidade completa, já que de amor não entenderão nenhum terço. Enquanto isso eu fico aqui, com a maledicência de um sábio louco, rouco, pouco que se esconde dentro de qualquer feixe de escuridão para nunca mais sair e, por enquanto, com uma última gota de esperança, sentindo o ar que entra em seus pulmões, quer acreditar que algo aqui ainda é real e verdadeiro. É, se precisa acreditar!
PONTO!