
- Uma sirene distante ecoa nas paredes frias dessa noite, quieta e calma, e eu imagino quando será a minha vez, quando será que, por frações de segundo, eu mudarei o mundo com uma fragilidade imensa e um desejo no fim. Eu descobri que anjos choram, silenciosamente, todas as noites, mas que quase ninguém os ouve, porque, no fim, todos dormem enquanto eu acordo. Todos dormem enquanto eu, ainda, continuo aqui. Os olhos são os mesmos, os pensamentos nem sabem-se mais que ou quem são, só pensam se sabem algo além do que sabiam. Os olhos ardem, a boca seca, o coração não dispara mais. O medo não fragiliza, a coragem não enobrece, a vontade desaparece. E no meio da noite anjos continuam chorando, clamando para que, em algum momento, as preces deles sejam ouvidas... Clamando para que, em algum momento, cesse a dor de todos aqueles a quem os anjos guardam, e resguardam do mundo. Essa noite eu me mantive acordado mais uma vez, construindo e destruindo tudo aquilo que eu sempre construi e reconstrui. Hoje me mantiva acordado mais uma vez para destruir mais do que amenizar, talvez porque eu sempre pense que minhas paredes estão podres e precisam de reformas, e estruturas novas, e alicerces novos, e passagens novas e, e... E por ter me mantido acordado por mais uma noite, em claro, e por destruir minhas paredes, mais uma vez, vazias, cheguei mais próximo daqueles frágeis anjos da noite, daqueles que choram, calados em seu canto, com lágrimas de lua, sorrisos de sol, temperanças de chuva. Cheguei mais perto daqueles que me compreendem. Cheguei mais próximo de mim... E preferi me manter lá, pra sempre. E sempre...
PONTO!


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