sábado, 1 de setembro de 2012

- Vento.





- Homens como eu são como o vento. São como o vento porque mudam, porque passam. Embora sintam a necessidade de ficar, de estreitar e esperar, são obrigados a caminhar. E, dentro do coração, sempre ouvem a voz materna dizendo que 'nós aprendemos da maneira mais difícil que tudo o que nos resta é passar'... Somos tentados pelas luzes daquele farol que nos faz desejar mais do que nunca adentrar nas águas impuras da vivência errante de um mundo incólume. Não se esqueça que o desespero da permanência também leva adiante. Nós pensamos que talvez pudesse haver alguma maneira de nos fazer estar, ficar fisicamente por mais do que minutos em algum lugar, na mente de alguém, mas tudo o que temos é alma e talvez apenas ela possa fazer mudanças. Enquanto isso seremos como o vento, desde a pequena brisa até o mais forte ventaval. Desde o mais caloroso até o frio mais cortante. Seremos como o vento porque vivemos assim, porque devemos ser assim, porque essa é a nossa realidade. E no fim, quando perceber, talvez tenhamos passado, depois de termos mudado o suficiente no mundo. Quando perceber, passamos...

sábado, 21 de abril de 2012

- Precipício.


- Nos olhos desse vento incólume a busca não terminou.  A busca nem começou, por assim se dizer, ela apenas se fez presente para que se lembrasse que havia um rumo. A luz forte da lua incomoda o coração desesperado e as cores fortes das virtudes se tornam tons de cinza perto desse imenso lago vazio. Como se em uma estrada escura e com fortes chuvas, o sol se recusasse a aparecer. Como se em um velho parque as flores se recusassem a brotar. Trovões que sempre aparecem em momentos nos quais a vida quer queimar os que nunca resolveram o que plantar. É como reviver todos os dias os momentos em que o seu mais querido amor entrelaçava seus dedos entre o seu cabelo e tudo parecia em algum lugar. Mas passava... E passa. É se segurar no que pode vir amanhã, nas surpresas que sempre são esperadas. E enquanto esperamos e fazemos o que as regras já inventadas dizem, torcemos para que a sorte sorria, para que a dor seja amenizada, e torcemos ainda mais para ser alguém em algum lugar, para ser alguém em algum mundo, uma parte da história de alguém. Porque, no fim das contas, ninguém quer fechar o seu livro sem um final feliz. Ou, pelo menos, um final interessante. E é por isso que nós fechamos os olhos. Nós queremos ser alguém em algum mundo, alguém dia e noite, alguém que não se vá esquecer tão fácil. E quando levantarmos as mãos para o adeus teremos completa certeza de que os olhos daqueles que ficam serão encharcados pelo que fizemos, pelo nosso vazio e pela nossa dor, mas, acima de tudo, serão embargados pelo nosso amor e pela falta que esse amor, que um dia pode ter parecido tão pouco e pequeno, fará nesse mundo tão frio e desesperado. É... Nós queremos ser alguém em algum mundo!

PONTO!

domingo, 25 de dezembro de 2011

- Mente.

- E nessa noite tudo o que eu posso ver é uma luz quente que envolve o quarto, me afastando por algum tempo de todas as sombras que insistem em bater à porta. A visão da cidade alta que acomete os breves momentos de nostalgia se mostra presente e a alma parece permanecer lá, abandonando um corpo um tanto quanto esgotado pelo medo. É como se a pele saltasse para algum lugar distante, algum lugar intocável, e logo após fosse arrastada de volta ao chão. Pregos se cravam nos pés, pregos se cravam nos ombros e espinhos rasgam os músculos. As mãos desesperadas de quem não tinha o que sofrer, agora salientam o sabor de mais uma noite insone. E o céu, obsoleto em sua observação, só faz piscar mais uma de suas estrelas, buscando de forma irrelevante destinar esperança para os não alentos, buscando desatrelar tudo aquilo que foi unificado. É muito tarde para chamar por alguém agora, talvez alguém que já houvesse se importado, é muito tarde para gritar, chorar ou reclamar. É hora de ficar em silêncio... No silêncio da noite. No silêncio do vento da noite.


PONTO!

sábado, 12 de novembro de 2011

- Pra mim.


- E o mundo girou. Não há nada aqui pra te fazer sentir bem ou mal. Não há nada aqui para nenhuma coisa. O verde se desbotou em um tom pálido, esquálido, inválido. O ar que antes pesava, nem pesa mais. E quando não há outra chance, nem tempo de acordar rápido, muito menos para se sentir aquecido, o mundo gira. E você é como uma vela em meio a um tornado, talvez uma foto sem o foco certo, algo inconformado, deformado para uma realidade a qual não pertence com certeza. Tudo o que se sabe é que a chuva faz falta. O cheiro da liberdade forçada é tão forte que só a chuva consegue amenizar. Nem o Vento o faz. O Vento só voa, intrépido, para algum lugar que nem ele sabe qual. O Vento só voa...

PONTO!

sábado, 8 de outubro de 2011

-

- A pergunta ainda é a mesma daquela feita por este poeta quando o mundo resolveu parar. As lágrimas que madrugam insistem em me visitar a cada noite de cada tempo e, a cada escuridão que a terra traz, elas insistem em brilhar escondidas no fundo mais enfurecido do desespero... Do desespero de viver. O hálito longínquo do vinho barato não é mais tão assustador, muito menos a fria sensação de solidão, vasta como uma estrada vazia em uma noite vadia, em qualquer espaço de imensidão. Hoje eu sei, que talvez, os meus braços não possam segurar tanto quanto eu queria. E, hoje eu sei, que talvez, as minhas pernas não carreguem nada a mais que lembranças, que descasos, que minha parte inteira... E que, talvez, eu seja apenas vento, como aqueles que passam desapercebidos, mas que de tão suaves marcam a pele e levam um pouco de alma. E sentir-se assim, com essa pura liberdade crua, com essa grande inconstância e enfermidade, com esse peso e essa leve sensação de prazer, traz ao vento o que ninguém nunca imagina. E ele venta, e venta. Cada vez mais tímido, cada vez mais fraco, cada vez menos entusiasmado... Mas venta. E é no ventar que ele é diferente. O vento se difere ao ventar. O vento vive ao ventar...

PONTO!

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

- Um pequeno pedaço de monstro...

- Fez-me algo como um objeto, como uma construção que eu não mais alimentava. Instigou os olhos, molhou o coração e enxarcou todas as idéias conturbadas de mundo, de ventos. Longe de tantos, perto de um único. Íntrinseco como um pequeno vinho em uma garrafa, ou um chocolate que se derreteu pelo caminho. Perto como um animal não muito sonoro, quase estático. E enquanto a luz entrava, e os cantos escuros se iluminavam, e os medos se partiam, e os pés pisavam com mais intensidade. E quando o fôlego já não era mais único, mas sim dividido. E quando tudo continuou... Enquanto a chuva caia e o rosto era lavado, os pulmões quase não respiravam e o mundo caminhava ao longo de uma estrada tão finita, olhos azuis como o meu coração transpuseram meus direitos. Olhos azuis como a chuva, voaram com o vento, criaram com o vento, e ventaram. E as palavras que com o vento voaram, criaram orvalho, criaram medo, criaram harmonia. E o que eu posso fazer é guardar um pouco dessa chuva, pra molhar o coração quando ele quiser secar. E, por enquanto, até que uma longa tempestade caia e me faça caminhar pelo desconhecido, por uma vida cheia de novas gotas e raios, é o que consigo fazer... Eu só posso guardar a água dessa chuva.

PONTO!

sábado, 23 de julho de 2011

- Ode ao lado escuro da lua!


- No fundo eu sei que já posso morrer! Não morrer porque quero que minha vida cesse, ou que meus dias aqui acabem, mas sim porque seria egoísta de minha parte viver mais do que já vivi, ver mais do que, em toda minha vida, sei que muitos não chegaram a ver. Eu tenho, como qualquer um, momentos de devaneios incertos, de ódios intermináveis, de medos tremendos e, quando me agarro a um desses pecados por mim cometidos, penso no quanto injusto eu sou por me privar de tudo aquilo que me foi ofertado. O lado escuro da lua pertence a mim também. Não sei o quão amargo seria dizer que esse lado obscuro sou eu por completo, que se ilumina por alguns sóis presentes nessa atmosfera esquisita, nesse universo imperfeito, nesse mundo com características somente atribuidas por mim. Não sei o quão monstruoso é demonstrar a face mal feita, o veneno que não escorre todos os dias, com todo o contorno de uma bela figura, um belo desastre, um belo desconserto. O ar que pesava antigamente, hoje nem efeito faz mais. O medo que antes a janela deixava voar, hoje é aumentado pela imensidão de toda a existência. A dor, o cansaço e o distúrbio se prendem e se desmontam face a face com a minha desistência. Uma desistência silente, remota e insensível, que gela meu coração e destrói o meu corpo aos poucos. Uma desistência que me toma como se eu já não pudesse mais tomar conta de mim, como se eu tivesse deixado, em todos os cantos desse mundo em que estive, uma parte desse estranho monólogo de tantas pessoas. No fim, o lado escuro da lua nem é tão mais frio que o outro e não deixa de ser menos conflitante. O lado escuro da lua se destrói com qualquer simples atenção, se destrói por não pertencer aos que não conseguem vê-lo, se destrói por não ser tão perfeito quanto o lado iluminado. O lado escuro da lua, aquele que ninguém consegue enxergar com perfeição, sou eu!

PONTO!