sexta-feira, 22 de novembro de 2013
- Fora do tempo.
- Há ainda esperança na batida do relógio. Doze horas, doze sons, doze vidas. Há, ainda, medo nas batidas. Nas batidas do relógio, nas batidas que eu dou à porta. O olhar cansado que avista o escuro do corredor, o cabelo escasso que cede ao toque, a pele marcada pelo fogo frio da vida. Há ainda sorrisos na batida do relógio. Na batida do relógio e em minha boca seca. Essa boca amarga que profere impropérios contra minha própria sanidade. Essa boca azeda que se apetece por acalentar o mundo e destruir a casa. Essa boca sã, que de tão sã enlouquece todos os dias. Há ainda lágrimas nas batidas do relógio. Nas batidas do relógio e nos meus ouvidos surdos, que de tanto exasperarem com os gritos dos ventos, de tanto encaixotarem as mentiras marcadas, estancaram-se. Há ainda suor na batida do relógio. Na batida do relógio e em meu olho que arde, que cansa, que insone todas as noites prega peças na minha própria humanidade. Há suor em todo esse corpo perdido, esse corpo que luta, contra o mundo e contra si, numa batalha desproporcional, numa possibilidade de fuga. Ah, o relógio. Quantas coisas há nesse relógio. Quantas almas de pequena monta reconstroem meu heterônomo. Quantos passos esses pés que esfolam caminharam sobre à água. Há ainda esperança na batida do relógio?
domingo, 9 de junho de 2013
- Quando a solidão passa a ser sua casa.
- Há muito mais frio aqui, onde o escuro mora. Há muito mais medo aqui, onde os esquecidos ficaram. Há muito aqui, mas nós esquecemos. Eu espero que o frio passe. Eu espero que a dor passe. Porque eu sei, eu não posso me salvar, assim como não posso construir sem destruir, como não posso amar sem odiar. O frio aqui ferve minha alma como óleo quente, como a brasa que queima na fogueira acesa. Eu lembro de mim, dos meus olhos, dos seus olhos, de tudo aquilo que arde. Eu lembro da paz, mas eu também lembro da guerra. Nunca é por muito tempo. Eu não sou e nem quero ser ameno, não sou e nem quero ser o mesmo. Eu te mantenho perto, não te mato, nem te coloco tão longe quanto deveria. Eu te mantenho quente, vivo, pulsante. Eu te mantenho em paz. Há muito tempo atrás, talvez mais do que isso, eu não me lembrava do mundo, eu não lembrava de mim. Eu não lembrava das cores, não lembrava dos gostos. Eu não lembrava que podia. Sim, eu podia. Talvez hoje não mais. Eu espero que o frio passe. Eu espero que a dor passe. Eu espero que a gente possa se lembrar.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
- In verso.
- E eu vi as gotas que caíam. Não, não falo da chuva, e seria estranho se eu o fizesse nesse afastamento indivisível que transforma um em dois. As estrelas caminham para o mesmo rompante que os meus olhos se negam a ver, a receber, a perceber. É como se, por ser como o vento, a força e a leveza inexistentes expulsassem todas as pedras que mais me valiam, que mais me completavam. Mas se você nunca tentar, você nunca saberá. E se eu nunca souber, também não seria preciso tentar? Estou em chamas, puramente fogo. E quando se mistura vento e fogo temos uma forma inimaginável, um desalento forte, uma catastrófica vontade, um infinito terminável. Acabo de quebrar todos os copos, todas as luzes e todos os ossos. Acabo de quebrar um por um desses ossos que só me pesam, sem sustentar. Sinto ainda a energia que grita, que pulsa, que te leva pra longe, que me traz pra perto, que nos leva longe e que te prende junto, em comunhão. Sem amor, sem glórias, sem asas que me façam pular sem medo no precipício. Os meus olhos são pardos como a noite parda, como aquilo que não se pode reconstruir, como tudo aquilo que, talvez, eu devesse ter destruído pra sempre. Como eu mesmo disse que seria, como eu mesmo fiz com todo esse vento que me preenche, como eu mesmo quis... E enquanto eu ouvia os carros na cidade e via, ainda mais longe, as luzes que brilhavam dos prédios envolvidos pela noite escura, e imaginava aquela imensidão sem fim, e sentia, por momentos curtos, o vento envolvente tomar meu rosto, eu pude ver, com os verdadeiros olhos que me foram dados. Acho que, naquela hora, descobri o sentido da vida, e, mesmo assim, acho que ela não faz sentido algum. Sentido algum...
PONTO!
sábado, 1 de setembro de 2012
- Vento.
- Homens como eu são como o vento. São como o vento porque mudam, porque passam. Embora sintam a necessidade de ficar, de estreitar e esperar, são obrigados a caminhar. E, dentro do coração, sempre ouvem a voz materna dizendo que 'nós aprendemos da maneira mais difícil que tudo o que nos resta é passar'... Somos tentados pelas luzes daquele farol que nos faz desejar mais do que nunca adentrar nas águas impuras da vivência errante de um mundo incólume. Não se esqueça que o desespero da permanência também leva adiante. Nós pensamos que talvez pudesse haver alguma maneira de nos fazer estar, ficar fisicamente por mais do que minutos em algum lugar, na mente de alguém, mas tudo o que temos é alma e talvez apenas ela possa fazer mudanças. Enquanto isso seremos como o vento, desde a pequena brisa até o mais forte ventaval. Desde o mais caloroso até o frio mais cortante. Seremos como o vento porque vivemos assim, porque devemos ser assim, porque essa é a nossa realidade. E no fim, quando perceber, talvez tenhamos passado, depois de termos mudado o suficiente no mundo. Quando perceber, passamos...
sábado, 21 de abril de 2012
- Precipício.
- Nos olhos desse vento incólume a busca não terminou. A busca nem começou, por assim se dizer, ela apenas se fez presente para que se lembrasse que havia um rumo. A luz forte da lua incomoda o coração desesperado e as cores fortes das virtudes se tornam tons de cinza perto desse imenso lago vazio. Como se em uma estrada escura e com fortes chuvas, o sol se recusasse a aparecer. Como se em um velho parque as flores se recusassem a brotar. Trovões que sempre aparecem em momentos nos quais a vida quer queimar os que nunca resolveram o que plantar. É como reviver todos os dias os momentos em que o seu mais querido amor entrelaçava seus dedos entre o seu cabelo e tudo parecia em algum lugar. Mas passava... E passa. É se segurar no que pode vir amanhã, nas surpresas que sempre são esperadas. E enquanto esperamos e fazemos o que as regras já inventadas dizem, torcemos para que a sorte sorria, para que a dor seja amenizada, e torcemos ainda mais para ser alguém em algum lugar, para ser alguém em algum mundo, uma parte da história de alguém. Porque, no fim das contas, ninguém quer fechar o seu livro sem um final feliz. Ou, pelo menos, um final interessante. E é por isso que nós fechamos os olhos. Nós queremos ser alguém em algum mundo, alguém dia e noite, alguém que não se vá esquecer tão fácil. E quando levantarmos as mãos para o adeus teremos completa certeza de que os olhos daqueles que ficam serão encharcados pelo que fizemos, pelo nosso vazio e pela nossa dor, mas, acima de tudo, serão embargados pelo nosso amor e pela falta que esse amor, que um dia pode ter parecido tão pouco e pequeno, fará nesse mundo tão frio e desesperado. É... Nós queremos ser alguém em algum mundo!
PONTO!
domingo, 25 de dezembro de 2011
- Mente.
- E nessa noite tudo o que eu posso ver é uma luz quente que envolve o quarto, me afastando por algum tempo de todas as sombras que insistem em bater à porta. A visão da cidade alta que acomete os breves momentos de nostalgia se mostra presente e a alma parece permanecer lá, abandonando um corpo um tanto quanto esgotado pelo medo. É como se a pele saltasse para algum lugar distante, algum lugar intocável, e logo após fosse arrastada de volta ao chão. Pregos se cravam nos pés, pregos se cravam nos ombros e espinhos rasgam os músculos. As mãos desesperadas de quem não tinha o que sofrer, agora salientam o sabor de mais uma noite insone. E o céu, obsoleto em sua observação, só faz piscar mais uma de suas estrelas, buscando de forma irrelevante destinar esperança para os não alentos, buscando desatrelar tudo aquilo que foi unificado. É muito tarde para chamar por alguém agora, talvez alguém que já houvesse se importado, é muito tarde para gritar, chorar ou reclamar. É hora de ficar em silêncio... No silêncio da noite. No silêncio do vento da noite.PONTO!
sábado, 12 de novembro de 2011
- Pra mim.

- E o mundo girou. Não há nada aqui pra te fazer sentir bem ou mal. Não há nada aqui para nenhuma coisa. O verde se desbotou em um tom pálido, esquálido, inválido. O ar que antes pesava, nem pesa mais. E quando não há outra chance, nem tempo de acordar rápido, muito menos para se sentir aquecido, o mundo gira. E você é como uma vela em meio a um tornado, talvez uma foto sem o foco certo, algo inconformado, deformado para uma realidade a qual não pertence com certeza. Tudo o que se sabe é que a chuva faz falta. O cheiro da liberdade forçada é tão forte que só a chuva consegue amenizar. Nem o Vento o faz. O Vento só voa, intrépido, para algum lugar que nem ele sabe qual. O Vento só voa...
PONTO!
sábado, 8 de outubro de 2011
-
- A pergunta ainda é a mesma daquela feita por este poeta quando o mundo resolveu parar. As lágrimas que madrugam insistem em me visitar a cada noite de cada tempo e, a cada escuridão que a terra traz, elas insistem em brilhar escondidas no fundo mais enfurecido do desespero... Do desespero de viver. O hálito longínquo do vinho barato não é mais tão assustador, muito menos a fria sensação de solidão, vasta como uma estrada vazia em uma noite vadia, em qualquer espaço de imensidão. Hoje eu sei, que talvez, os meus braços não possam segurar tanto quanto eu queria. E, hoje eu sei, que talvez, as minhas pernas não carreguem nada a mais que lembranças, que descasos, que minha parte inteira... E que, talvez, eu seja apenas vento, como aqueles que passam desapercebidos, mas que de tão suaves marcam a pele e levam um pouco de alma. E sentir-se assim, com essa pura liberdade crua, com essa grande inconstância e enfermidade, com esse peso e essa leve sensação de prazer, traz ao vento o que ninguém nunca imagina. E ele venta, e venta. Cada vez mais tímido, cada vez mais fraco, cada vez menos entusiasmado... Mas venta. E é no ventar que ele é diferente. O vento se difere ao ventar. O vento vive ao ventar...PONTO!
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
- Um pequeno pedaço de monstro...
- Fez-me algo como um objeto, como uma construção que eu não mais alimentava. Instigou os olhos, molhou o coração e enxarcou todas as idéias conturbadas de mundo, de ventos. Longe de tantos, perto de um único. Íntrinseco como um pequeno vinho em uma garrafa, ou um chocolate que se derreteu pelo caminho. Perto como um animal não muito sonoro, quase estático. E enquanto a luz entrava, e os cantos escuros se iluminavam, e os medos se partiam, e os pés pisavam com mais intensidade. E quando o fôlego já não era mais único, mas sim dividido. E quando tudo continuou... Enquanto a chuva caia e o rosto era lavado, os pulmões quase não respiravam e o mundo caminhava ao longo de uma estrada tão finita, olhos azuis como o meu coração transpuseram meus direitos. Olhos azuis como a chuva, voaram com o vento, criaram com o vento, e ventaram. E as palavras que com o vento voaram, criaram orvalho, criaram medo, criaram harmonia. E o que eu posso fazer é guardar um pouco dessa chuva, pra molhar o coração quando ele quiser secar. E, por enquanto, até que uma longa tempestade caia e me faça caminhar pelo desconhecido, por uma vida cheia de novas gotas e raios, é o que consigo fazer... Eu só posso guardar a água dessa chuva.
PONTO!
sábado, 23 de julho de 2011
- Ode ao lado escuro da lua!
- No fundo eu sei que já posso morrer! Não morrer porque quero que minha vida cesse, ou que meus dias aqui acabem, mas sim porque seria egoísta de minha parte viver mais do que já vivi, ver mais do que, em toda minha vida, sei que muitos não chegaram a ver. Eu tenho, como qualquer um, momentos de devaneios incertos, de ódios intermináveis, de medos tremendos e, quando me agarro a um desses pecados por mim cometidos, penso no quanto injusto eu sou por me privar de tudo aquilo que me foi ofertado. O lado escuro da lua pertence a mim também. Não sei o quão amargo seria dizer que esse lado obscuro sou eu por completo, que se ilumina por alguns sóis presentes nessa atmosfera esquisita, nesse universo imperfeito, nesse mundo com características somente atribuidas por mim. Não sei o quão monstruoso é demonstrar a face mal feita, o veneno que não escorre todos os dias, com todo o contorno de uma bela figura, um belo desastre, um belo desconserto. O ar que pesava antigamente, hoje nem efeito faz mais. O medo que antes a janela deixava voar, hoje é aumentado pela imensidão de toda a existência. A dor, o cansaço e o distúrbio se prendem e se desmontam face a face com a minha desistência. Uma desistência silente, remota e insensível, que gela meu coração e destrói o meu corpo aos poucos. Uma desistência que me toma como se eu já não pudesse mais tomar conta de mim, como se eu tivesse deixado, em todos os cantos desse mundo em que estive, uma parte desse estranho monólogo de tantas pessoas. No fim, o lado escuro da lua nem é tão mais frio que o outro e não deixa de ser menos conflitante. O lado escuro da lua se destrói com qualquer simples atenção, se destrói por não pertencer aos que não conseguem vê-lo, se destrói por não ser tão perfeito quanto o lado iluminado. O lado escuro da lua, aquele que ninguém consegue enxergar com perfeição, sou eu!
PONTO!
terça-feira, 17 de maio de 2011
- Esse, talvez, não seja o fim.

- Meu coração nunca foi puro. Minha mente talvez nunca tivesse deixado que ele chegasse perto dessa alcova. E eu sinto que o tempo está passando muito mais rápido do que eu. Como se eu estivesse trancado em uma caixa, desejando rever o sol, mas com os desencontros de uma criança. E hoje, ainda, o ar não me basta mais. E é mais do que engraçado quando o ar não basta, porque os pulmões se enchem de nada, assim como as suas idéias. Você perde a memória, e não encontra nada nas lembranças que deviam te manter acordado. "Acorde sua alma!" é o que você pensa, e acha que é o que pode pensar, mas, a cada dia que vai, a cada noite que some num céu um pouco mais claro, e cinza, a sua alma repousa perdida em algum lugar. Eu sei que, em todos os sonhos com estradas chuvosas e bem estares súbitos enxergando velhos e novos mundos eu posso encontrar uma casa, pelo menos nesses sonhos. Eu posso sonhar com isso tudo, agora e sempre, mas eu não posso voltar pra alguma casa de novo. Não, não posso!
domingo, 15 de maio de 2011
- Anjos choram, silenciosamente, todas as noites.

- Uma sirene distante ecoa nas paredes frias dessa noite, quieta e calma, e eu imagino quando será a minha vez, quando será que, por frações de segundo, eu mudarei o mundo com uma fragilidade imensa e um desejo no fim. Eu descobri que anjos choram, silenciosamente, todas as noites, mas que quase ninguém os ouve, porque, no fim, todos dormem enquanto eu acordo. Todos dormem enquanto eu, ainda, continuo aqui. Os olhos são os mesmos, os pensamentos nem sabem-se mais que ou quem são, só pensam se sabem algo além do que sabiam. Os olhos ardem, a boca seca, o coração não dispara mais. O medo não fragiliza, a coragem não enobrece, a vontade desaparece. E no meio da noite anjos continuam chorando, clamando para que, em algum momento, as preces deles sejam ouvidas... Clamando para que, em algum momento, cesse a dor de todos aqueles a quem os anjos guardam, e resguardam do mundo. Essa noite eu me mantive acordado mais uma vez, construindo e destruindo tudo aquilo que eu sempre construi e reconstrui. Hoje me mantiva acordado mais uma vez para destruir mais do que amenizar, talvez porque eu sempre pense que minhas paredes estão podres e precisam de reformas, e estruturas novas, e alicerces novos, e passagens novas e, e... E por ter me mantido acordado por mais uma noite, em claro, e por destruir minhas paredes, mais uma vez, vazias, cheguei mais próximo daqueles frágeis anjos da noite, daqueles que choram, calados em seu canto, com lágrimas de lua, sorrisos de sol, temperanças de chuva. Cheguei mais perto daqueles que me compreendem. Cheguei mais próximo de mim... E preferi me manter lá, pra sempre. E sempre...
PONTO!
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
- Perfeição.
- Mais uma vez, mais uma noite, mais uma vez todas as coisas. É como se tudo se prendesse de uma ponta a outra e você sentisse aquela sensação que nunca consegue explicar a ninguém. Periódicamente dói, dilacera, estraçalha e você não consegue manter a força. Você se crucifica e remaneja tudo o que não precisa. E quando vê já remanejou até o que não devia. Hoje você olha pra um espelho embaçado, escreve palavras insossas para amenizar tudo o que se perdeu. Hoje você se lembra de pedaços de memórias que talvez nunca tenham pertencido a você e, talvez, você nunca tenha tido memórias pra guardar, apenas desconstruções de planos imperfeitos feitos apenas por você. Você está só, como sempre esteve e nunca entende porque a necessidade de ter alguém ao seu lado, que seja seu amigo, seu irmão, sua cria. Leve minhas vísceras malditas ao inferno, porque lá deve ser melhor do que o longo caminho que se sinta. Leve minhas vísceras expostas ao nada, ao abismo, ao infito desbunde. Hoje, não mais do que hoje, muito menos amanhã, os abraços não fazem mais sentido, não fazem mais tranquilidade. Hoje, não mais do que hoje, os amigos se tornam inimigos, as desavenças se tornam rumores e sua vida se torna nada. Ou talvez, nem se tornou algo, apenas nunac foi. Hoje, não mais do que hoje, a perfeição foi jogada por todas as pessoas em cima dos seus ombros, e, isso, você não precisa e, talvez, nem seja capaz de aguentar.
PONTO!
sábado, 22 de janeiro de 2011
Aceitação.

- Essa tela branca que me consome todos os dias, que me borda de todos os jeitos que eu sempre componho e recomponho, com todas as cores esquisitas e frias, com todas as coisas esquecidas, com todas as pinturas que foram deixadas de lado. Hoje eu escolhi não ser menos do que eu sou, hoje eu escolhi não deixar de olhar pra tudo o que já se foi e sorrir, sorrir pra dor, sorrir pro medo, pra frieza das palavras, pro choque das decepções. Hoje eu decidi sorrir porque eu sempre soube como o meu destino estava selado à isso. Me sinto de volta ao corpo, não com todos os anos que me consumiram, mas com todas as simplicidades que quis ter. Hoje me sinto pronto, com muito no coração, mas pronto. Hoje eu começo a partir mais uma vez, pra uma última viagem, pra uma última conexão com o que hoje eu conheço. O desconhecido me espera novamente, sempre foi assim. Alguém sem raízes, alguém sem galhos, ramos ou folhas. Alguém completamente nú, em carne crua, pedra bruta, descascado, desapropriado como sempre. Hoje eu não me sentirei menos do que eu sou, hoje eu lembrarei de tudo e me sentirei bem. Hoje não ligarei em ser repetitivo, e espero que o seja, pois talvez assim as pessoas entendam como são hipócritas e fúteis, quando perdem coisas que amam por pensarem em imagens, em coisas que precisam fazer. Esquecer de ser feliz e procurar felicidade em coisas menores. É, vocês não fazem isso certo. Agora eu entendo, e agora estou pronto. Sim, agora estou pronto!
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
- Escolha.
- Como qualquer outra coisa, a escolha que você faz te persegue entre todos os seus medos e devaneios. E do que adianta não dormir mais? E do que adianta continuar parado aqui, frio como uma pedra, olhando para frente, sempre acreditando que o melhor está nesse caminho que eu escolho pra mim todos os dias se, no fundo, nem eu sei mais aonde estou ou o que faço?!
As lembranças que serviriam para montar o que hoje sou, desmontam a cada dia mais minha vontade, minha força, meu futuro. Meu passado vence minha garra, meu passado vence minha coragem, meu passado me vence. Existem coisas que nunca foram ditas e que, pelo caminho que eu insisto em prosseguir, nunca serão. É parar e perceber que, hoje, você não acredita em mais nada daquilo que já acreditou. Você não acredita em sentir, em se deixar, nas coisas pequenas que por muito te fizeram sorrir. E os dias ensolarados são exatamente os mesmos que chovem. E os dias que chovem são exatamente os mesmos pensamentos que te mantem acordado. Em mais uma temporada os dias insônes chegam e não vão. Em mais uma temporada a ânsia do mundo não cabe mais em você. Em mais uma temporada de 21 tempos. Será que já não foi o suficiente? Será que eu realmente ainda tenho algo mais a acrescentar? Bom, acho que por tudo, você já se esqueceu. Você já repassou. E por orgulho, eu repassei e transpassei tudo o que devia. Mas, na verdade esse mundo ainda me assusta e, hoje, sinceramente, não quero mais ficar nele. Me sinto pronto, e gostaria de ficar por aqui. Mas não sou eu quem mando no jogo e enquanto os dados continuarem rolando, eu ficarei acordado. E enquanto os dados estiverem rolando eu ficarei aqui, insone, no meio de todas as minhas escolhas.
PONTO!
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
- Dor.
- Inexplicável como um homem precisa parar toda a sua vida e reorganizar suas forças para cobrar o que é impossível entender. Indexável é pensar que por mais forte que você seja o fardo só tende a aumentar e a força a ir se afunilando dentre todos esses farrapos, dentre todos esses recomeços e recaminhos. Hoje o céu parece infundável, em crise, com milhares de estrelas em colapso, formando figuras sem fundamento, sem cabimento, sem sentimento. E eu estou aqui, parado, olhando com o mesmo olhar, que parece nunca mudar. Talvez todos os meus erros sejam os meus espinhos, dentro de um coração cheio de esperança e garra que carrega em uma sobreponta inseguranças e medos. Inseguranças absurdas, incontáveis e sufocantes. Inseguranças tão inseguras de si que precisam do meu apoio para continuarem existindo e, eu, sem intenções, construo-as palavra por palavra, frio por frio, dor por dor. É quando qualquer música te remete a única coisa que pareceu te fazer vivo depois da morte. É quando qualquer almoço em qualquer restaurante barato te faz lembrar dos risos e bobagens com comida. É quando, nem mesmo bêbado, você consegue esquecer aquilo que te assombra. E vai te assombrar até sabe-se lá quando. É quando você se abaixa e não quer mais se levantar. E tudo isso depende de você. Pelo menos todos dizem que levantar todo esse peso e continuar caminhando é o que se deve fazer. Mas, e se você quiser parar? E se você quiser ficar apenas onde está? As coisas não podem simplesmente continuar sem você? Não podem se reconstruir sozinhas? E você para. E o mundo continua girando, as flores continuam lá para todos os apaixonados, os beijos, o sexo, o carinho, a dor, o prazer e o caminho... E você parado, como sempre deveria ter ficado, entendendo que muita coisa não pertence a você e que não faz diferença se você continua ou não, porque, no fim, as pessoas continuam sem você. E o seu caminho nem brilha mais. Você continua caminhando por espasmos, com os pés dilacerados e cansados e sem apoio. Sem nada. Mas isso já devia fazer parte do seu costume. Você nunca teve nada e, talvez, nunca terá. Embora você ainda guarde um ponto de esperança, você percebe que ela diminui a cada dia. E seu corpo nem responde mais, sua respiração se torna mais ofegante, seu rosto se mostra pálido e com marcas fundas de um sofrimento constante. E tudo isso parece não passar. E não se sabe se passará. Você só pode continuar se arrastando. Vivendo aos cantos de um quarto vazio e frio, enquanto o único que tem algo pra mostrar está lá fora. E parece que não vai mudar. Sim, parece...PONTO!
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
- Lembranças
- Sou isso, um amontoado de lembranças. Ridículo, imprevisível e sem rumo. Não posso querer ser mais do que isso ou caminhar contra o que me foi escrito. Está escrito o que está escrito e eu só devo seguir a linha. Todas as vezes em que desentranho esses pensamentos infâmes e vis, nada mais posso fazer além de admirar a velocidade em que as coisas vem e vão. Hoje, enquanto penso novamente em quão nada posso ser, em quão tudo tem que ser de formas diferentes para pessoas diferentes, enquanto o botão de rosa não florece, enquanto tantas coisas que inúmeras seriam aqui. Quem está na chuva fria sou eu. Quem ainda vê os relâmpagos e ouve os trovões sou eu! Quem ainda não entendeu sou eu. Por todos os dias eu rezo para que se emancipe de mim as letras para que curem e cicatrizem os momentos não consumados. Espero, pelas letras, costurar os retalhos e remendar os buracos, amenizar as dores e a consciência. Um poeta não é poeta porque quer, é poeta porque sofre. É na sofreguidão que lhe vem as idéias, que lhe vem as formas de alivar esse mundo. Ele infla, desincha, empenha. Ele se desmonta em quatrocentos pedaços e tenta entender o que acontece, mas ele não entende. E ninguém nunca vai. Amaldiçoados os que nasceram com o dom de pensar, o dom de querer descobrir. Amaldiçoados os que querem ser felizes, porque pra esses restarão apenas as esperanças. Amaldiçoados os que montam suas lembranças e essas lhes prendem, como correntes quentes, a tudo aquilo que desejam esquecer. Amaldiçoados. Somos todos nós, poetas.PONTO!
terça-feira, 26 de outubro de 2010
- Teimosia.

- Talvez fosse a hora do show acabar, de se soltar as amarras e entregar tudo de uma maneira rápida, mas não menos dolorosa. É como se por mais que você ganhasse, aos pouquinhos fosse perdendo o que adquiriu. Sabedoria, experiência e qualquer outra forma de experimento também se vai. Hoje eu sinto tanta falta de tudo o que um dia não me fez falta. Hoje eu sinto saudade de cada bobagem de um dia normal, de uma conversa em qualquer um dos trabalhos (e foram centenas) que passei. Hoje sinto falta porque minha cama está vazia, e não quer ser completa porque ainda não pode, ainda não sente. Como se um vento tão mais forte do que eu tivesse passado pela minha vida e eu não tivesse tido tempo de segurar as rédeas, eu fui. Eu passei. Tão cansado de não poder ficar, de não poder permanecer. E nesse caminho minado por ódio de incompreensivos, por medo de fracassados, por desaventuras de desiludidos, eu continuei andando, crendo em tudo aquilo que um dia eu disse que me faria bem. E, acho que, faz! Acho que se eu mudasse agora toda minha vida perderia o rumo e, de verdade, eu não quereria mudar. E mesmo que o mundo esteja se despedaçando ao redor, que os dias se tornem cada vez mais irrespiráveis, que as manhãs se tornem cada vez mais insuportáveis e que as noites, essas inóspitas noites, se tornem sem fim, e que meu coração grite dizendo que não dá mais, que meu corpo pare por também se sentir incapaz, eu tirarei forças do fim do Show. E se, o show tiver que acabar mesmo, com ou sem solução, sem a caminhada completa, com a falta que meus "corações" me fazem, que minhas emoções me fazem, ele vai acabar por conta própria. Embora eu ainda espero que tudo não passe de um sonho e que, ao acordar amanhã, tudo volte ao normal, que eu possa estar nos braços conhecidos novamente, que eu possa me refazer, me reconstruir e sentir novamente a segurança insegura, a raiva, o sexo, a briga, o carinho, a descoberta, mesmo sabendo, que no fundo, eu acabei sentindo isso sozinho. E é assim que prefiro ficar por enquanto, sozinho...
PONTO!
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
- Liberdade
- Todas as nossas buscas se derivam do interesse na liberdade, mas, no fundo, o que é a liberdade? Se alguém, algum dia, tiver a resposta certa para essa pergunta, não terá mais motivos para ansiar ser preso e responderá porque deixamos tudo aquilo que amamos por nos sentimos presos a tudo, e, logo após, sentimos a prisão em não ter? Não há uma noite em que eu passe sem me amaldiçoar, ou amaldiçoar os erros que cometi. Não há uma noite em que as coisas parecem encaixadas, nem mesmo quando tudo parecia bem eu as sentia assim. Hoje eu tento, e digo que só tento... Quando tudo o que você escolhe parece sempre te levar a um novo começo quando o que você mais quer é ficar aonde estava, crescendo lá. Parece que quando minhas raízes estão começando a se firmar novamente, algo com uma lâmina afiada vem, corta todas as esperanças e sonhos que construí e me mostra o quão fraco podemos ser perante aquilo que não conhecemos. Você se divide, dá o seu melhor, se transforma naquilo que sempre pensou ser o melhor e, mesmo assim, falha, mais uma vez. Você começa a realmente desacreditar e isso te assusta. Hoje você já não vê mais o que via no espelho. O brilho dos seus olhos já não estão tão presentes e você luta, luta para simplesmente se interessar. Quando tudo se quebra em tantos pedaços que, pra consertar, você teria que se repartir em mais do que pode. Hoje eu olho para o céu, não o mesmo céu, e me pergunto como vivi tanto tempo se tudo o que eu vivi não passou de mentiras mal contadas, de juras falsas de amor, de intensas trocas desesperadas na parte interna e externa, para que, no fim eu pudesse ouvir que havia sido falho, de corpo e alma. Se a primavera vier e eu não mais estiver aqui, como um dia um sábio autor disse, a primavera será a mesma, mas, as pessoas com quem eu vivi serão? Hoje eu me acostumo com meu lado vazio da cama, minhas idas ao supermercado sozinho, minhas não ligações, minhas não conjunções, meus não sexos. Hoje eu me reajeito quando sinto frio, quando estou com dor ou, até mesmo, quando estou alegre e, mais uma vez, só eu percebo. Não há porque desistir, embora sem forças e sem condições, ainda existe um coração abaixo disso tudo e ele ainda acredita no dar e receber, não no "cuide de si mesmo". Hoje esse coração sangra, como sempre sangrou, e vive, como sempre viveu. Não mais alegre, nem mais triste. Não mais livre, nem mais preso (até porque a liberdade é tão relativa que eu me sentia livre enquanto era preso e preso enquanto sou livre). Não mais quente, nem mais frio... Somente vive, simples como sempre.
PONTO!
domingo, 6 de junho de 2010
- Ode ao 'eu' interior.

- Mais uma noite sem sono. Mais uma vez o quarto vazio pesa e o ar corta os pulmões ao entrar. É um tempo magnífico, é um tempo de memórias, nostalgias infâmes que acabam com tudo o que eu ainda tenho de conhecimento sobre a vida. Me lembrarei em todo tempo das caminhadas em Copacabana, das diversões trocadas, das carícias discretas e memoráveis e daquilo que, um dia, eu acreditei ser o melhor pra mim. Lembrarei com tanta amargura de todos os gestos de felicidade, do sufoco profundo causado pela via dupla do coração aberto, dos planos que, talvez, só eu tenha construído. Vou lembrar da linha tênue que separou o amor próprio do amor único e imensurável e, lembrarei, com amargura, da minha perda dentro de todo esse tempo em que me desconhecia a cada dia. Vou me lembrar dos dias em que, mais triste, te fiz sorrir e tu, quando mais triste eu estava, me lembrava que não poderia deixar de lado o teu sorriso, me descartando por completo de uma cena onde cabiam dois. Vou me lembrar da dedicação quebrada, das falsas juras de amor, dos beijos que no fundo carregavam o veneno da traição, da mentira que, a dois, parecia tão real, tão equilibrada com o fim. Me lembrarei da minha mão na tua, dentro de um momento nosso, enquanto por noites e noites íamos as festividades vividas e mensuradas, e dividíamos todo o tempo, mesmo sabendo que, na real verdade, quem dividia um pedaço seu, não era esse ser estúpido que hoje aqui faz ode a essas palavras, mas o mundo, todo o mundo que sobrou além de mim. Lembrarei como uma ferida eterna das desavenças e dos momentos onde eu, por completo descuido, me deixei aqui, nesse canto escuro, esquecido de mim e perdendo o mais precioso que em mim ainda havia. Vou lembrar como a dor de lâminas cortando pedaços da pele das horas em que eu tirei de mim e entreguei a você, acreditando na verdade que eu construí pra mim de cuidado mútuo, respeito. Vou lembrar dos dias em que, em desespero, eu destruía as minhas preces pedindo paz e encontrava o ódio. Vou lembrar do quanto ser parecido com o Vento não me deixa feliz, mas me faz ser real e verdadeiro. Me faz sentir desligado de tudo e prestes a voar novamente. Vou lembrar do meu medo maior, do pavor que se estremece em minha boca ao pensar que todas as pessoas assim serão, que o amor não existe e é pura utopia das pessoas para sobreviverem a um cotidiano de tristezas. Vou lembrar como todas as minhas alegrias se transformaram no meu próprio inferno, na minha própria dor. E vou lembrar insistentemente das vezes em que nos olhos eu te olhava e, com a mais pura sinceridade, declarava o quanto eu queria fazer de ti a pessoa mais amada e aclamada de todas as épocas e tempos passados e atuais. E como uma andorinha voando no céu, eu vou lembrar de quando deitávamos a toa em nosso colo, olhando para um azul infinito, esperando apenas a hora mudar e falávamos tantas coisas sem fundamento, sem intenção, só para preencher o nosso vazio. Vou lembrar do seu afeto que se tornou vazio, e do meu que completou por inteiro todo o nosso espaço. Vou lembrar de quanta sinceridade faltou, de quantos golpes eu levei e relevei. De tudo o que não se via, e, mesmo hoje, não se vê. Vou me esforçar para lembrar de cada traço do teu rosto para que, no fundo, minha alma apague a amargura que sente ao pensar que, na pessoa que mais confiou, encontrou a confirmação de algo que sempre quis acreditar não ser verdade. Vou me esforçar ainda mais para que, novamente, eu possa me libertar dessas correntes, que passaram uma ou duas vezes na minha inteira caminhada, e que, em certo tempo e coerência funcionaram como andares, nessa vida cheia de calçadas. Vou me lembrar, pra toda vida, que nada dói mais do que a mentira e que a falta de verdade destrói tudo o que uma pessoa pode ter. Vida, amor próprio, confiança, beleza, se vão ao simples toque da irrealidade. E o espelho não te satisfaz mais, e seu corpo e voz se tornam tão mesquinhos. E todos os problemas do mundo cabem em você e nisso se resumem. Eu vou lembrar que tudo isso não passa de uma outra ilusão, de um outro desespero famigerado por desilusões que se encontram em um mesmo momento. E, enquanto eu lembrar de todos os ventos que contigo eu senti, o meu coração fará a grande caminhada para o perdão, te dará espaço numa vaga memória inútil e insensível dentro do próprio peito e deixará o que, um dia, muito foi, se esvair para o nada sou.
PONTO!
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